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Demandas da mente humana junho 6, 2010

Posted by conscienciaalterada in Alucinógenos.
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Por Ulisses Capozzoli

Há milhares de anos a medicina divide com a religião o uso de substâncias alucinógenas com a finalidade de alterar a consciência para acessar dimensões não convencionais da realidade. Em muitos casos, e isso ocorre ainda hoje, esses trabalhos são feitos com a ajuda de plantas alucinógenas. Elas permitem a alteração de consciência tanto dos xamãs quanto de seus pacientes. Juntos, eles mergulham em universos paralelos em busca de modalidades de cura que permanecem longe de inteiramente decifradas pela ciência.

No Brasil, encontra-se em evidência a ayahuasca, bebida preparada a partir de duas plantas, o cipó caapi (Banisteriopsis caapi) e a folha de um arbusto, a chacrona (Psychotria viridis) que contém o princípio ativo a dimetiltriptamina (DMT), semelhante à melatonina. Ainda que legalmente autorizado a utilizar a bebida em rituais religiosos, que se espalharam da Amazônia para outras regiões do país, o santo-daime pode ter sua imagem afetada pela violência que atingiu o cartunista Glauco e um de seus filhos. E isso pode tornar ainda mais difícil a compreensão e a aceitação pelo público do uso dessas substâncias, mesmo com fins religiosos.

Já do lado da medicina, pode não ser apenas coincidência que os alucinógenos mais importantes de plantas e determinados hormônios cerebrais – serotonina e noradrenalina – tenham a mesma estrutura química básica. São como cópias de uma chave capaz de abrir uma fechadura, neste caso uma célula nervosa. Entretanto, o que parece prevalecer é uma visão geral sumária em torno da palavra “droga”, quase sempre carregada de sentido negativo. Ainda que seja indispensável discenir o uso de substâncias capazes de produzir alterações de consciência em rituais religiosos, xamânicos ou medicinais de usos abusivos e alienado-alienantes. Não só de plantas como de outras substâncias, inclusive as sintéticas.

A dificuldade de reconhecimento contextualizado e sistematizado quanto ao uso de substâncias específicas para a alteração da consciência, produzindo o que se pode chamar de realidade não comum, está presente na obra do antropólogo Carlos Castaneda. Nas poucas entrevistas que concedeu, Castaneda, um dos gurus da contracultura dos anos 60/70, enfatizou que não fazia uso de substâncias alucinógenas. E só se valeu delas numa fase específica do aprendizado, sob supervisão de seu mestre, para romper o que pode ser entendido como uma armadura de racionalidade cartesiana.

Para Castaneda “nossas expectativas usuais sobre a realidade são criadas por um consenso social. Ele nos ensina como ver e perceber o mundo. O truque da socialização consiste em nos convencer de que as descrições com que estamos de acordo definem os limites do mundo real. O que chamamos de realidade é apenas um modo de ver o mundo, um modo sustentado pelo consenso social”.

Ulisses Capozzoli é Dr. em Ciências pela Universidade de São Paulo (USP).

Extraído e modificado de Scientific American Brasil Ed Esp 38.